A especulacão financeira quer desacelerar a economía brasileira
Por Bruno Lima Rocha, jornalista, cientista político e professor de relações internacionais.
O Brasil vive um bom momento de sua economia real. Insistimos na tese, os bons resultados se dão apesar da herança maldita pós golpe de 2016. As principias amarras após abril de 2016 são: teto fiscal ou arcabouço fiscal; reforma da Previdência; privatização da Eletrobrás; deforma trabalhista; preços internacionais balizando a Petrobrás; distribuição de dividendos da maior empresa do país e outras mazelas construídas na ascensão reacionária através da Lavajato (operação de Lawfare) e da extrema direita (manipulação de consciências através de redes sociais dominadas). E, o pior, a “independência” do Banco Central.
No governo Lula 3, o país tem algumas constâncias. São elas: a privatização de empresas públicas estaduais (através da extrema direita ou governos neoliberais); a melhoria do emprego formal e a resiliência da informalidade; a posição dos MEIs (microempreendedores individuais) preferindo a formalização via CLT; o aumentor real da renda do trabalho e do poder de compra das famílias e a constância do endividamento da classe trabalhadora. A economia está aquecida assim como o mercado de trabalho, chegando obviamente a faltar mão de obra justamente pela luta por melhores condições. A luta contra a escala 6 x 1 e pela jornada semanal de 40 horas se tornou uma bandeira de toda a classe, ultrapassando as divisões entre centrais e bases sindicais que rivalizam.
Apesar da maior parte destas notícias serem positivas, o controle da despesa financeira (o custo do dinheiro, do capital de giro) e a pressão do mercado imobiliário ainda são impeditivos para que o quase pleno emprego se torne boom econômico. A sensação de bonança está distante da vivida no segundo governo Lula e o primeiro de Dilma (2007-2014) mas já está perceptivelmente melhor que nos oito anos anteriores a janeiro de 2023. Justo por isso, e pela linha política do governo que insiste em “não arrumar confusão com nenhum poder real ou fático”, vemos uma condução fraca na Fazenda e no Planejamento, levando o país a reforçar a posição dos parasitas financeiros. A percepção mais notada é a alta de juros (a Taxa Selic). O presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, não quer “cavalo de pau” na política econômica, assim como o titular da Fazenda, Fernando Haddad.
Curioso é notar que Galípolo hoje fala o oposto do que escreveu em 2017 (nem faz tanto tempo assim). Vejamos.
O giro do presidente do Banco Central
Em 2017 o então jovem professor Gabriel Galípolo assina em conjunto com o consagrado economista Luiz Gonzaga Belluzzo um livro ímpar na denúncia e análise da etapa de acumulação financeira. Também podemos nos referir ao momento do capitalismo do século XXI onde o Ocidente se dedica a extrair a riqueza social de povos e nações para concentrar a capacidade de investimento, enriquecimento e tomada de decisões em oligarquias rentistas. Ou seja, a parasitagem está em uma etapa superior de dominância sobre o modelo produtivo ocidental. O capitalismo asiático e eurasiático tem outra dinâmica e outro padrão de desenvolvimento, por sinal, em franca superioridade.
A obra intitulada “Manda Quem Pode, Obedece Quem tem Prejuízo”, coedição da FACAMP e Editora Contracorrente traz a seguinte sinopse:
“A Editora Contracorrente tem a honra de publicar mais uma obra do notável Prof. Luiz Gonzaga Belluzzo, agora em parceria com o jovem e brilhante Prof. Gabriel Galípolo.
O atualíssimo trabalho “Manda quem pode, obedece quem tem prejuízo”, esclarece como o mercado financeiro funciona e qual a relação das ditas “ciências econômicas” com a política. Apresenta ainda, por meio da revisão do pensamento de economistas contemporâneos e clássicos, como é construído o discurso sobre a crise econômica no Brasil e no mundo.
Valendo-se de refinada ironia, já demonstrada no título da obra, os autores demonstram que o poder real em uma economia capitalista não reside no poder representativo, mas sim nas articulações econômicas e financeiras que estão no interior da sociedade.”
Segundo o portal Poder 360, o presidente do BC (Banco Central), Gabriel Galípolo, disse na 5ª feira (27.mar.2025) que foi “protagonista” na reunião que sinalizou alta da taxa básica, a Selic, em dezembro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, havia atribuído, em 20 de março, a decisão ao ex-presidente da autoridade monetária Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro (PL). “Eu já tinha dito que o Roberto Campos [Neto] havia sido generoso de, já na última reunião [de 2024], pudesse permitir que eu pudesse assumir um papel maior de protagonismo ao longo da discussão daquela reunião do Copom. Para além disso, todos os diretores têm autonomia e, em todos os meus votos e em todos os votos dos diretores, está lá expresso o que é a consciência e a visão de cada um dos diretores”, disse Galípolo.
Ainda segundo o Poder 360, Haddad disse, em 20 de março, que o Banco Central não poderia fazer um “cavalo de pau” na política monetária com a saída de Campos Neto. O presidente indicado por Lula reforçou esta noção. Galípolo apresentou na 5ª feira (27.mar.2025) o Relatório de Política Monetária. A autoridade monetária diminuiu de 2,1% para 1,9% a projeção para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil em 2025. Na ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), o BC disse que a desaceleração da economia é “elemento necessário” para levar a inflação para a meta de 3%.
A alegação é a de sempre. Não levar a uma suposta pressão inflacionária pela economia aquecida, a chamada “inflação por demanda”. Existe uma meta de inflação – arbitrária – e para atingi-la se justifica quase tudo. O intervalo da meta é de 1,5% a 4,5%. A taxa do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) foi de 5,06% em fevereiro. Segundo o BC, deverá subir para 5,6% em março e ficar próxima de 5,5% nos próximos meses.
Quem mais fatura com a alta da Selic e a especulação cambial?
E se a projeção for equivocada, com melhores índices e pressão inflacionária mais baixa? Aprofundando o questionamento, será que a elevação da Selic não é uma forma de evitar a especulação cambiária, atendendo a chantagem de sempre? Vejamos.
No artigo anterior vimos quais são as instituições financeiras privadas que detêm os direitos de venda e recompra dos papeis da dívida pública soberana brasileira. E quem pode participar dos leilões de câmbio proporcionados pelo Banco Central, muitas vezes torrando reservas para atender a sanha do especulador?
O mercado de câmbio no Brasil autoriza a 172 instituições estatais, privadas nacionais e privadas transnacionais. Tais autorizações datam de 1o de julho de 2023. Dentre esta lista, existem os Top 30. Em 28 de fevereiro de 2025 a lista dos trinta maiores operadores de câmbio no Brasil eram:
Banco Santander / Unibanco / Citibank / JP Morgan / BTG Pactual / Bradesco / MUFG / BNP Paribas / Votorantim / Société Generale / Votorantim / ABN / Banco Central do Brasil / Braza Bank / Goldman Sachs / State Street / Safra / XP / Deutsche Bank / HSBC / C6 / Banco Topázio / Rabobank / Ouribank / Mizuho / Fibra / Morgan Stanely / Crédit Agricole / BS2.
Em última instância, a lista das empresas que podem vender e recomprar os títulos da dívida pública em conjunto com as instituições líderes do mercado de câmbio, comandam, de fato, as diretrizes do Copom e do Banco Central. Quando a “mídia especializada” fala do “humor do mercado” está refletindo a posição pública destas empresas. Nota-se que a maioria não é brasileira e nenhuma destas está ancorada no desenvolvimento capitalista asiático. Afirmamos isso, considerando que o Japão ainda é um país subalternizado, pela ocupação militar dos EUA, assim como a Coreia do Sul.
“Desacelerar a economia” é não permitir que a renda fixa perca para a renda variável, fazendo com que os bancos fomentem de fato o densenvolvimento industrial do país. Parece simples, certo? E porque não explicam assim? É – ou seria – dever do jornalismo econômico brasileiro cobrir mais economia e menos especulação. Ou ao menos não operar quase como porta-voz do mercado financeiro. Bastaria contrapor as posições públicas das autoridades à frente do Banco Central e expor os interesses diretos atrás das decisões públicas tomadas pelo Conselho de Política Monetária. Estamos longe disso ainda.